04 Assim como encontrar um rapaz de cabelos louros num jogo de romance
— Mano, acorda, está na hora de ir para a escola —
Na manhã do dia seguinte, Chen Shang despertou ao som de uma voz afetuosa que o chamava do lado de fora da porta.
Vestiu, com habitual indolência, o uniforme formal do colégio que repousava no armário, apanhou a mochila e empurrou a porta, saindo.
Ao abrir a porta, encontrou a irmã, Nayuda, aguardando-o com reverência, segurando a própria mochila diante do corpo. Embora, conforme a narrativa, Nayuda fosse um ano mais nova que Chen Shang, sua prodigiosa aptidão acadêmica permitira que pulasse um ano, ingressando no ensino médio junto ao irmão.
Naquele dia, Nayuda trajava o uniforme padrão de outono do ensino médio: uma camisa branca impecavelmente engomada, sobre a qual vestia um suéter preto de decote aberto; a saia preta com bordas brancas, curta e asseada, combinava com meias de algodão brancas, que lhe cobriam os joelhos; os sapatos de couro, redondos, reluziam intensamente, evidentemente encerados com esmero.
— Mano, o café da manhã já está pronto. Coma e depois vamos para a escola — disse Nayuda, inclinando levemente a cabeça, com a delicadeza de uma criada.
— Ah... — respondeu Chen Shang, com sua habitual frieza.
Os irmãos sentaram-se frente a frente à mesa da sala de estar, onde repousavam duas porções de omelete de arroz, acompanhadas de alguns pratos simples.
Na concepção do jogo, os pais dos protagonistas haviam partido há alguns anos, trabalhando em terras distantes, deixando apenas os irmãos na casa.
E Nayuda, sempre dócil e sensata, assumira, após a partida dos pais, quase todas as tarefas domésticas, tornando-se, em essência, a governanta particular do protagonista.
Em suma: Chen Shang era o exemplo clássico do “tem uma irmã, tem uma casa, os pais estão longe”, e, sob todos os aspectos, a irmã era de uma competência admirável.
Na verdade, Chen Shang pretendia atribuir ao protagonista uma condição de “órfão” desde o princípio. Contudo, há poucos anos, uma súbita proibição abalou o mundo dos jogos: personagens principais órfãos estavam vetados.
A decisão surgiu de preocupações paternas: temiam que protagonistas órfãos inspirassem valores rebeldes nas crianças, com consequências imprevisíveis para os jovens.
Mas onde há política, há subterfúgio. Décadas atrás, os desenvolvedores de jogos adultos, para contornar a proibição de menores, criaram as “loli-avós” — meninas com idade para serem suas avós, abreviadas como BBA.
Quanto à proibição dos órfãos, a solução era simples: bastava declarar que os pais trabalhavam em terras longínquas e raramente voltavam para casa.
Após o café da manhã, os dois partiram juntos para a escola.
— Mano, hoje vamos começar o ensino médio. Espero que possamos ficar na mesma turma! —
— Mano, está nervoso? —
— Tomara que eu faça novos amigos no ensino médio! —
Durante o trajeto, Nayuda virava-se constantemente para falar com Chen Shang, mas recebia respostas curtas: “hum”, “ah”, “entendi”, ou simplesmente o silêncio.
Parecia que Nayuda era a jogadora, e Chen Shang, um NPC limitado a repetir frases.
Em sua vida passada, Chen Shang recebera confissões de muitas mulheres, mas quase todas atraídas por sua aparência e renda. Com o tempo, ele abandonou a retórica do “homem direto”, preferindo a eficiente “tática de Link”.
Se eu não falar, elas não conseguem puxar conversa comigo.
— Quanta gente... — Assim que chegaram à escola, Nayuda ficou impressionada com o movimento intenso à entrada.
A Escola Secundária Shangcheng era a maior e mais prestigiosa da região de Longmen, atraindo até mesmo estudantes do distrito vizinho de Arakawa, do Japão.
Além disso, era o dia da cerimônia de recepção dos novos alunos, e o ambiente estava especialmente efervescente.
Na entrada do campus, faixas e decorações coloridas pendiam, com estudantes e pais entrando e saindo, enquanto os professores, em uniformes impecáveis, recebiam os novatos.
— Mano, vou verificar em que turma fomos colocados! —
Nayuda pulou alegremente, adentrando a multidão de alunos para consultar o quadro eletrônico com as listas de turmas.
— Pode olhar sozinha — disse Chen Shang, esperando do lado de fora.
Como responsável pelo planejamento do jogo, Chen Shang conhecia de cor a distribuição dos personagens principais nas turmas do “capítulo escolar”.
Logo, Nayuda saiu do meio da multidão e correu até Chen Shang, dizendo:
— Mano, fui colocada na turma A... —
— Isso é ótimo, não? — respondeu Chen Shang, sem surpresa.
Na Escola Shangcheng, as turmas A e B eram as de elite, reservadas para os alunos de destaque. Para um gênio como Nayuda, cuja inteligência inicial era de 2 pontos, estar na turma A era natural.
Já Chen Shang, com habilidades iniciais zeradas, era destinado à turma regular.
— Mas... — Nayuda demonstrou certo desalento, abaixando a cabeça:
— Mano foi colocado na turma D... Eu me esforcei tanto para estar na mesma turma que você... —
— O problema é que você se esforçou demais! —
Percebendo que o clima se tornava estranho, Chen Shang desviou rapidamente o assunto: — Vou te acompanhar até a sala de aula.
— Hum! — Nayuda logo recuperou a alegria, saltitando ao lado do irmão pelo corredor.
Ao chegarem à porta da turma A do primeiro ano, Nayuda entrou, relutante, logo sendo rodeada por colegas para conversar.
Chen Shang esquadrinhou o ambiente da turma A, fixando o olhar em um jovem de cabelos curtos e amarelos, de aparência elegante.
Esse rapaz era também um aluno da turma A, rodeado por colegas, tornando-se o centro das atenções.
Seja pelo porte, pelo rosto, pela elegância do vestuário ou pelo carisma, tudo nele transmitia apenas uma palavra: perfeição.
Um personagem que parecia ter saído de um romance feminino, um executivo dominador e belíssimo, capaz de eclipsar Chen Shang em qualquer aspecto.
Ao vê-lo, Chen Shang sentiu a pressão arterial subir, como se Peter Parker tivesse ativado o sentido de aranha.
— Sabia que você estaria aqui... — murmurou Chen Shang, com o rosto involuntariamente contorcido.
O nome do jovem era Xu Qing. Em suma, era o “segundo protagonista masculino”, o maior obstáculo para o jogador neste jogo de romance.
Quando o jovem herdeiro assumiu o roteiro do jogo, exigiu à equipe de produção que criassem um personagem principal inspirado nele próprio.
Assim, esse herdeiro sem vergonha maximizou todos os atributos do “segundo protagonista masculino” até o nível 5 — o máximo que um ser humano pode atingir.
Com tal configuração, não só a protagonista feminina, mas até uma chimpanzé seria incapaz de resistir ao seu fascínio.
Além disso, Xu Qing era o filho do maior conglomerado de Longmen, o Grupo Xu, sempre cercado de seguranças.
Mesmo que o jogador o odiasse, tentar matá-lo seria inútil — antes que a faca aparecesse, já teria a cabeça alvejada por snipers.
E mais: os atributos iniciais do jogador eram todos zero; mesmo com uma modificação genética, Chen Shang teria apenas 1. Xu Qing, para lidar com o jogador, nem precisaria recorrer aos seguranças.
Ou seja, dentro da dinâmica normal do jogo, derrotar Xu Qing antes ou durante o meio do enredo era impossível.
Mesmo se o jogador conseguisse eliminá-lo mais tarde, as garotas ao redor já estariam moldadas à sua imagem, podendo se voltar contra o jogador por ter matado o segundo protagonista.
Mas Chen Shang, como planejador do jogo, não se conformava com o roteiro ordinário.
Já arquitetava, em seu coração, um plano para instaurar o caos neste mundo de romance e derrubar o segundo protagonista.
Ao pensar nisso, Chen Shang não pôde deixar de sorrir, com um leve tremor nos lábios.
Xu Qing pareceu notar alguém observando-o à porta, ergueu o olhar, mas só viu um colega de costas, afastando-se.
Chen Shang adentrou a sala da turma D, escolheu um assento junto à janela nos fundos e, casualmente, conversou com alguns colegas meio-ciborgues para passar o tempo.
“Ding-ling-ling-ling—”
Logo, o sinal de início das aulas soou. O professor subiu ao palco, fez um breve discurso e conduziu os novatos ao auditório para a cerimônia de abertura.
Essas cerimônias nada mais eram do que ouvir o diretor e seus asseclas despejarem um punhado de discursos vazios, seguidos por alguns alunos destacados exibindo sua superioridade.
Como esperado, Xu Qing também subiu ao palco para falar. Seu carisma de 5 pontos arrancou gritos de muitas alunas, conquistando rapidamente uma legião de admiradoras; o evento de abertura parecia um encontro de fãs.
Após o evento, os alunos retornaram às salas para as aulas do dia, sendo liberados para casa por volta das três e meia.
Ao sair da sala, Chen Shang viu Nayuda já esperando na porta da turma D.
— Mano, vamos juntos para casa! O que gostaria de comer hoje à noite? — Nayuda correu até ele, agarrando carinhosamente o braço do irmão.
Os colegas ao redor, ao testemunhar a cena, deixaram transparecer expressões distorcidas de inveja.
— Maldição, ele tem uma irmã da turma A! E tão adorável! —
— E ainda cozinha para o irmão... Eu... eu... Chen Shang, precisa de mais um irmão? —
— Chen, leve-me contigo! De hoje em diante, você é meu pai! —
Chen Shang ignorou os colegas enlouquecidos pela inveja, levou a irmã para um canto e disse:
— Tenho algo a resolver hoje, vá para casa antes.
— Hein? Por quê? — Nayuda imediatamente demonstrou suspeita: — O que, afinal, você vai fazer?
Segundo o roteiro, o protagonista era um otaku genuíno, raramente saía, exceto para pequenas compras.
— Segredo masculino — Chen Shang respondeu enigmático, sequer se dando ao trabalho de disfarçar.
Deu um tapinha no ombro de Nayuda e partiu sozinho em direção ao portão da escola.
— Hm... tão suspeito... — Nayuda inflou as bochechas, a expressão cheia de desconfiança:
— Acho melhor segui-lo para ver o que está aprontando! —