Quatro

Tanah tempat aku dilahirkan Si Gila 3235kata 2026-03-12 14:30:30

Não se sabia ao certo como haviam feito o arranjo, mas Cangqi fora alocada em meio a um grupo de calouras, todas do primeiro ano, em um dormitório de quatro pessoas; contudo, todo o corredor pertencia às alunas do primeiro ano do curso de Inglês.

Agora, aquele bando de jovens donzelas se preparava para as revisões de fim de semestre. Diariamente, Cangqi despertava ao som de leituras em voz alta e adormecia sob os murmúrios de colegas memorizando vocábulos.

Ainda não lhe tinham designado nenhuma disciplina, de modo que, ao levantar-se, restava-lhe navegar na internet, ler notícias, entreter-se com jogos de memorização de palavras ou assistir a alguns filmes em inglês. Para alguém acostumada à labuta, de repente se ver desocupada era um suplício difícil de suportar.

As colegas de quarto, curiosas acerca daquela aluna mais velha, tentaram sondá-la algumas vezes, mas, sem obter respostas satisfatórias, deixaram-na em paz. Apenas souberam que ela estava ali para estudar inglês e, generosamente, lhe ofereceram dicas e materiais de estudo.

Cangqi não fracassara no exame nacional por causa do inglês, mas seu desempenho sempre fora mediano e, após tantos anos sem contato com o idioma, os caracteres agora lhe pareciam hieróglifos impenetráveis.

Sem alternativas, recordava-se de seu trabalho outrora glorioso e, mordendo os lábios, forçava-se a estudar com afinco.

Uma semana depois, numa quarta-feira à noite, sua colega de quarto a arrastou para o tradicional “English Corner” semanal.

Era uma atividade promovida pelo curso de Inglês, mas, como havia muitos alunos interessados, o evento adquirira proporções grandiosas e logo se tornara uma atividade aberta a toda a universidade. Todas as semanas, nas imediações do pequeno parque à beira do lago, o “English Corner” era tomado por uma multidão, assemelhando-se a um grande baile.

Cangqi postou-se à margem, contemplando aqueles jovens prodígios, sentindo-se perdida.

Nunca gostara de estudar e lamentava não ter ingressado na universidade. Observando aqueles adolescentes trocando frases rápidas e fluentes em inglês, parecia-lhe que pertenciam a um mundo completamente alheio ao seu; ela, pensava, deveria estar empunhando uma arma na fronteira, abatendo inimigos, enquanto aqueles jovens tinham o direito de levar uma vida despreocupada.

Nesse momento, numa sombra próxima, um casal de namorados discutia.

— Se não queria vir comigo, era só dizer. Por que essa cara de defunto?! — reclamou a moça.

— Tem gente demais — resmungou o rapaz.

— Justamente por isso é bom! Assim você treina! — insistiu ela.

— Você veio mesmo pra praticar conversação? — perguntou ele.

— E pra que mais eu viria? — rebateu a moça.

— Eu não vou praticar. Fico te esperando aqui.

— Vai ou não vai?

— Não vou.

— Hmpf! — exclamou, sacudindo os cabelos antes de sair correndo de trás dos arbustos. Ao avistar Cangqi parada à beira do lago, lançou-lhe um olhar fulminante. — Está olhando o quê? Tão bonita assim, é?

Sem dar tempo para resposta, afastou-se apressada.

Logo após, ouviu-se novo farfalhar, e o rapaz surgiu, livro em mãos, expressão impassível. Observou a garota se distanciar, depois lançou um olhar indiferente para Cangqi, limitando-se a acenar levemente com a cabeça.

Cangqi, constrangida, respondeu-lhe com um sorriso breve, quando, de repente, seu telefone tocou, exibindo um número desconhecido.

— Alô? Quem fala?

— Lu Cangqi, a mensalidade do tempo que você permanece na escola está sendo descontada do seu salário adiantado.

— Hã? — Aquela voz lhe era tão familiar! As duas vezes em que fora sequestrada, era sempre esse mesmo timbre, esse tom estranho que a fazia suspeitar até de um disfarce vocal.

— Se você não aproveitar a oportunidade, quando for obrigada a assumir o cargo, sabe o que terá de enfrentar? Por acaso pretende comunicar-se com seus colegas apenas pelo olhar? — A voz fez uma pausa, zombeteira. — Quase me esqueci, você só tem um olho.

Cangqi, tomada de indignação, justificou-se:

— Eu sei que você está me cobrando por não praticar conversação, mas do jeito que estou agora, nem meia boca, é só uma gota d’água. Se eu subir ali e disser um “hello”, já empaco! Como vou praticar assim?

— Isso não é uma questão para nós. Quando chegar à ONU, enfrentará dificuldades linguísticas ainda maiores. Colocamos você numa universidade justamente por considerarmos sua capacidade de adaptação. Se nem isso conseguir superar, seu cargo terá de ser reavaliado.

— Tudo bem, então! Que ONU que nada, que fique só aqui no nosso país mesmo — disse Cangqi, aliviada.

A voz silenciou-se por um instante antes de responder:

— Você não tem escolha.

E desligou.

Cangqi fitou o telefone com raiva, encarando a multidão à sua frente, tomada por uma sensação de impotência.

— Está com pressa de praticar conversação? — perguntou o rapaz ao seu lado.

— Sim, pois é… já não sou mais nenhuma menina — disse Cangqi, um tanto envergonhada. — Para ser franca, reprovei no vestibular, sempre fui ruim nos estudos. Depois de tantos anos de batalha, acabei sendo enviada de volta para estudar por causa do trabalho. Sinto-me completamente fora de ritmo.

O rapaz assentiu e não disse mais nada.

Cangqi ficou ainda mais embaraçada; aproveitava-se do desconhecimento mútuo para desabafar, mas o jovem era de uma frieza implacável.

Mal o silêncio se instalara, ouviu-se ao lado:

— Hello, What’s your name?

Cangqi estacou, então respondeu, gaguejando:

— Oh, oh, My name is Lu Cangqi.

— Nada de “oh, oh” — disse o rapaz, secamente. — Isso é inglês de caipira.

(…caipira caindo por terra…)

— Hello, What’s your name?

— My name is Lu Cangqi.

— I’m Lin Zhenghan, and where are you from?

Cangqi voltou ao dormitório atordoada e, deitando-se, parecia ouvir ainda a voz do rapaz ecoando: De onde você vem? Como se chama? Trabalha? Qual é o seu emprego? Não sabe responder? Bem, então gosta do seu trabalho?…

A mente repleta de perguntas ascendentes, tinha a impressão de que o rosto do rapaz era todo feito de pontos de interrogação.

Que provação era aquela!

Dali em diante, todas as quartas-feiras até o fim do semestre, Cangqi passou a frequentar o English Corner. A cada vez que fraquejava, encontrava o mesmo rapaz que acompanhava a namorada, e, após alguns treinos, tornaram-se conhecidos. Descobriu então que o jovem se chamava Lin Zhenghan e era, nada menos, que presidente do grêmio estudantil.

— Você certamente participará do curso intensivo de inglês nas férias — afirmou Lin Zhenghan, com um sorriso malicioso. — Está perdida, Lu Cangqi! Aquilo é para os intercambistas do semestre que vem. Com seu nível, como vai sobreviver?

— Você quer me matar?! — exclamou Cangqi, aflita.

— Não se preocupe, eu cuido de você — disse Lin Zhenghan, para logo emendar: — Have you ever seen the film A Green Mile?

— No, what’s that? — respondeu Cangqi, só então percebendo que já conseguia responder em inglês após tanto treino.

(…)

Assim que terminaram as provas finais, Cangqi recebeu finalmente o aviso das aulas: teria de frequentar um curso intensivo de inglês por um mês e, independentemente do resultado, logo assumiria o novo posto.

As três colegas já haviam partido, e ela, sozinha no dormitório, até se sentia confortável, não fosse o material didático que lhe provocava um amargo desânimo.

A mãe de Lu ligou novamente, e desta vez Cangqi respondeu com firmeza:

— Mãe, não se preocupe, já consegui um emprego.

— É mesmo? Que emprego? Onde você está agora? O dinheiro é suficiente? Com esse seu salário, não dá para muito tempo. Se precisar, peça à mamãe, não tenha vergonha.

— Está tudo bem, estou num curso de treinamento profissional, recebo uma bolsa.

— Que emprego é esse? Treinamento do quê?

— Meu supervisor investigou meu histórico antes de eu me aposentar do exército, achou que eu tinha méritos e me concedeu uma medalha de segunda classe. Arranjaram-me um cargo que exige contato com estrangeiros, por isso me mandaram para a universidade estudar inglês por um mês.

— Contato com estrangeiros? Não me diga que é no Ministério das Relações Exteriores! Ah, Cangqi, finalmente você se destacou! — exclamou a mãe, antes de desconfiar: — Mas não é para ser porteira do Ministério, não é?

— Ora, isso já é melhor do que mendigar! — retrucou Cangqi, insatisfeita. Embora ninguém lhe proibisse de revelar sua profissão, achava que, sendo quem era, se dissesse o título pomposo do cargo, soaria inverossímil. Melhor deixá-los imaginar. E, de fato, bastou uma pista para que a mãe logo concluísse, satisfeita, que ela devia ser segurança do Ministério das Relações Exteriores.

Cangqi pensou que, não fosse a realidade ser outra, a suposição até faria sentido…

— Então, Cangqi, agora vai poder vir visitar a mãe com mais frequência, não é? — disse a mãe, numa expectativa tão terna que Cangqi não encontrou coragem para recusar. Instintivamente, tocou o tampão sobre o olho esquerdo e murmurou:

— Assim que o trabalho estabilizar, arranjo um tempo para ir lhe ver.

— Ai, de tanto esperar pela filha, já fiquei de cabelos brancos; de tanto esperar por um genro, já fiquei até magra… — lamentou a mãe.

— Olhe lá, não exagere, que eu mal tenho idade pra pensar em genro… — protestou Cangqi.

A mãe ainda tagarelou algumas palavras, que Cangqi escutou distraída, antes de retomar os estudos de inglês.

Lin Zhenghan estava de partida para a Inglaterra como intercambista. Antes da viagem, compareceu ao intensivo da universidade, segundo ele, mais interessado em “treinar a tia novata” do que no próprio curso. Assim, surpreendia Cangqi com perguntas orais em todos os momentos: durante as provas, os exercícios, as aulas, os intervalos. Isso a fazia sofrer e se alegrar ao mesmo tempo; seu progresso era notável, mas agora falava com certo sotaque britânico, e sentia um temor secreto diante de Lin Zhenghan, mais ainda do olhar da namorada dele, Xiaoyue, também intercambista.

Certa vez, a moça não se conteve e chamou Cangqi de “tia”. De fato, Cangqi era três ou quatro anos mais velha que aqueles alunos do segundo ano, e, acostumada às provocações de Lin Zhenghan, já nem ligava mais; achava até simpático o apelido.

Mas Lin Zhenghan não gostou, fechou a cara na hora, e o casal teve novo desentendimento.

Cangqi não se preocupava com isso; ambos a chamavam de tia, estavam quites — quem deveria se ofender era ela, afinal!

Com apenas meio mês de curso, Cangqi estudava numa noite quando recebeu uma ligação do “CHEFE”. Aquela voz familiar, destituída de emoção, disse apenas:

— Cangqi, está na hora de começar.

Nota da autora: Overdose de estudo de inglês~