Capítulo 4: A Fazenda Espacial
Meng Jia, aproveitando a oportunidade, consolou o desalentado Lu Liqin; aos poucos, ambos se apaixonaram e uniram-se em matrimônio, retornando então juntos à cidade, onde empreenderam e conquistaram um notável sucesso.
Em particular, a carreira de Lu Liqin prosperou extraordinariamente, tornando-o um magnata local; mesmo assim, jamais abandonou a esposa dos dias difíceis, mantendo com ela um laço conjugal repleto de amor, felicidade e harmonia, e ambos, protagonistas da história, viveram uma existência plena.
Para ser franca, ao ler este livro pela primeira vez, Tang Xin sentiu-se especialmente atenta à personagem original, pois partilhavam o mesmo nome. No entanto, não pôde deixar de lamentar sua obtusidade e falta de iniciativa; a personagem original era, por demais, tola e cega.
Será que ela não percebia as intenções tortuosas de Meng Jia? Não enxergava que todas aquelas pequenas maquinações visavam unicamente separar ela e Lu Liqin?
Até o momento, Tang Xin ainda não compreendia por que razão atravessara o véu do tempo e do espaço para adentrar as páginas de um romance. Todavia, uma intuição lhe dizia que, entre ela e esta personagem, havia uma ligação inexorável, algum laço irresistível que as conectava.
De outra maneira, como explicar que, de modo tão inexplicável, ela tivesse vindo parar neste lugar, assumindo o papel da infeliz antagonista?
Agora, porém, sendo ela a nova ocupante deste corpo, Tang Xin tomou uma resolução: viveria de modo digno, faria valer sua existência — não se resignaria à mediocridade.
A personagem original nutria verdadeiro afeto por Lu Liqin e acreditava sinceramente que um dia se casaria com ele. Já Tang Xin, agora ciente da trama, via nela inúmeras incongruências.
A protagonista renascida não pensava em autossuficiência, tampouco buscava construir uma carreira; seu único foco era disputar um homem — e, mesmo assim, alcançava uma felicidade eterna. Que lógica cruel e absurda era essa?
E quanto a Lu Liqin? A personagem original deste corpo o adorava profundamente. Mas e ele? Qual foi sua conduta?
Dizia, a todo instante, que só descera ao campo por causa da personagem original, mas, no fim, aceitou Meng Jia com espantosa presteza e com ela viveu uma vida inteira de aparente felicidade conjugal.
Tang Xin não conseguia deixar de desprezar tal homem de moral dúbia; mesmo a essência desta carne, agora sua, devia abrigar além do amor, uma dose considerável de ressentimento.
Será que ele não confiava nem um pouco em sua amiga de infância? Diante de um único infortúnio, não procurou averiguar nada, simplesmente aceitou o que lhe foi dito? E ainda, envolveu-se com a melhor amiga de sua antiga paixão.
Um homem assim, protagonista de um romance?
Para Tang Xin, era algo repugnante; comparado a Li Sheng — aquele que parecia feroz, mas de coração íntegro —, Lu Liqin saía perdendo em muito.
Ao pensar em Li Sheng, a memória da trama lhe veio de imediato, fazendo Tang Xin sentir-se inquieta. Segundo os desígnios do romance, em breve ela se casaria com Li Sheng.
Mas, não se passaria muito tempo, Li Sheng morreria, e ela seria taxada de mulher que traz desgraça ao marido.
***
Agora que assumira este novo papel, Tang Xin não pretendia ser aquela personagem submissa e desditosa. Se ela se esforçasse, poderia, certamente, alterar o curso dos acontecimentos, não deixando que o destino a conduzisse à desgraça, nem que a obrigasse, por fim, a buscar a morte nas águas de um rio.
Afinal, nem tudo na narrativa era irreversível.
A sogra, descrita no romance como amarga e implacável; a cunhada, tida por caprichosa e voluntariosa. Tang Xin vira Li Xiyue naquela noite — era apenas uma jovem de gênio um tanto difícil. Quão cega teria de ser a personagem original para acreditar que havia algo indecoroso entre Lu Liqin e ela?
E aquela anciã da família Li, seria mesmo uma sogra cruel?
Esses pensamentos fluíam incessantemente pela mente de Tang Xin, que ainda não conseguia deslindar por completo a teia das relações ao seu redor.
Foi então que seu estômago rompeu o silêncio com um bramido estrondoso.
Ela estava faminta — tão faminta que despertara do sono.
De que valiam protagonistas e antagonistas, amores e ódios? Havia agora uma necessidade mais urgente e angustiante diante de si.
Afinal, encontrava-se no ano de 1970 da China, equivalente à década de setenta de seu próprio tempo. Para além do movimento dos jovens enviados ao campo, o que mais marcava aquela época era a escassez — fome, frio, privações.
O aroma de arroz recém-cozido, frango, pato, peixe, bolos, doces... Quanto mais pensava, maior se tornava seu apetite; sentiu a boca salivar.
Melhor não pensar mais nisso; de nada adiantava.
Tang Xin então passou a examinar o cômodo ao redor. O cenário era ao mesmo tempo familiar e estranho: um quarto pequeno, paredes de barro cru, recobertas por velhos jornais. Havia poucos móveis — uma cama, um armário gasto e uma mesa. Nem mesmo uma cadeira. Sobre a mesa, repousava o Livro Vermelho.
Tang Xin sabia que, naquela época, recitar algumas citações dele podia ser de grande valia.
Fora isso, não se via mais nada; comida, então, era impensável.
Só então ela se lembrou: por estar absorvida nos próprios planos, cedera sua porção do jantar a Meng Jia.
Que erro, que descuido. Agora estava realmente faminta, a ponto de perder o sono.
Para se distrair, Tang Xin procurou pensar em outras coisas.
Por que atravessara para dentro de um romance, para este lugar? Será que não lhe estava reservado algum presente, como nos dramas e novelas? Quem sabe um espaço dimensional, poderes, um sistema? Tang Xin sabia que era fantasia, mas já que atravessar para dentro de pipeline literário era possível, por que o resto não seria?
O céu não a teria transportado até ali apenas para deixá-la morrer de fome, não é?
Nesse instante, de súbito, o cenário diante de seus olhos transformou-se.
Tang Xin arregalou os olhos, tomada pelo espanto.
Diante de si apareceu a interface do jogo "Fazendinha Feliz", a qual jogara em sua vida anterior. E o que surgia agora era a tela inicial, de nível zero, destinada a novos jogadores.
Ali, via-se uma pequena gleba de terra e, ao lado, instruções para novatos.
"Fazendinha Feliz orienta você a iniciar sua jornada: Parabéns, você agora é proprietária de uma fazenda! Comece já a plantar legumes e frutas! Visite a 'Loja' para comprar sementes, depois abra a 'Mochila', plante as sementes no 'Campo' e pronto!"
O choque de Tang Xin advinha de sua familiaridade com aquele ambiente; no passado, era um de seus passatempos prediletos.
Embora fosse uma estudante ocupada, também tinha seus momentos de lazer e distração. Por acaso, apaixonara-se por este jogo de simulação: "Fazendinha Feliz".
A tela inicial era exatamente aquela, com uma barra de ferramentas contendo loja e mochila.
Estaria ela ainda sonhando, por isso via de novo sua fazenda?
Foi então que, diante de seus olhos, surgiu um botão com os dizeres "Pacote do Novato".
Tang Xin, instintivamente, clicou nele e viu que continha, além de sementes de legumes, algumas frutas.
Logo, uma mensagem automática ecoou em sua mente: aquelas frutas eram brindes do pacote inicial; se quisesse mais, teria de cultivar e aprimorar sua fazenda até atingir o nível necessário para o plantio de árvores frutíferas.