Capítulo Quatro: As Regras do Segundo Tio
Meu segundo tio fazia mistério, deixando-me com uma sensação amarga, como se tivesse engolido uma mosca, o peito apertado por dustúrbio sufocante!
Bem quando eu queria continuar a inquiri-lo, do lado de fora do portão do pátio, o segundo filho da família Lin já havia trocado de roupa, pronto para descer ao rio Qing Shui! Atrás dele vinham muitos, uns apoiando, outros tentando dissuadir.
Mas Lin Lao Er claramente estava decidido, nada do que dissessem o faria mudar de ideia; chegou ao ponto de empurrar a própria mãe, que caiu ao chão!
Levantei-me, dirigi-me à porta, querendo intervir, mas ao abrir a boca, hesitei e desisti: não seria eu, certamente, a ter mais autoridade que seus pais.
Fitei Lin Lao Er intensamente.
Ele subiu no barco com ar de indiferença, navegando ao centro do pequeno Qing Shui.
A princípio, tudo era serenidade e calma, mas ao alcançar o meio do rio, a pequena embarcação sob seus pés começou a balançar violentamente!
Assustado, Lin Lao Er soltou um grito lancinante e, sem controle, tombou nas águas do Qing Shui!
Brotaram salpicos e, logo, desapareceu; restava apenas o barco à deriva no centro.
A superfície da água permaneceu plácida, nem mesmo o vento ousou formar uma única ondulação.
— Filho!
Os pais de Lin Lao Er, ao presenciar tal cena, entraram em pânico, bradando seu nome.
Os outros na margem recuaram, pálidos de terror.
Também eu, observando ao longe, sentia o couro cabeludo arrepiar-se.
Era assombroso demais!
Em oito anos, era a primeira vez que via com meus próprios olhos como o Qing Shui “matava” alguém!
Mais calmo do que eu imaginara, mas também mais sinistro.
Naquele instante, compreendi: o pequeno Qing Shui não era para qualquer um.
Ainda assim, minha maior preocupação era a vida de Lin Lao Er.
— Segundo tio, aconteceu uma tragédia! — Virei-me para ele, e nesse momento, os pais de Lin Lao Er e os demais também vieram correndo.
Ao adentrarem o pátio, os pais de Lin ajoelharam-se diante do meu tio, chorando e suplicando:
— Por favor, irmão da família Li, salve meu filho!
— Isso mesmo, irmão Li, vá depressa ao rio salvar o rapaz!
Comovido pelos apelos, meu segundo tio permaneceu sentado na jangada de bambu, e respondeu pausadamente:
— Um milhão. Nem um centavo a menos, caso contrário não busco!
Ao ouvirem tais palavras, os pais de Lin Lao Er empalideceram ainda mais.
Os demais do vilarejo não contiveram a indignação:
— Li Ming'an, o que quer dizer com isso?
— Exatamente! Lin Lao Er acabou de cair, sabe nadar, ainda resiste, está vivo; não vai buscar cadáver, vai salvá-lo!
— Um milhão? Você só pensa em dinheiro?
Muitas palavras duras se seguiram, mas meu tio, cabisbaixo, entretinha-se com a jangada. Desta vez, porém, falou um pouco mais:
— Quando ergo a placa, tenho três regras de recusa: primeiro, não busco desconhecidos; segundo, não busco se não houver dinheiro; terceiro, não busco parentes.
— Em outras partes, seja salvar ou buscar corpos, qualquer quantia aceito, posso descer ao rio.
— Mas o pequeno Qing Shui é como um portal para o além: quem entra, morre! Vosso filho não deu ouvidos, trouxe o infortúnio sobre si, já está morto! Só posso buscar o corpo, não salvar o vivo.
— Um milhão, nem um a menos.
Ao final, o semblante do meu tio também se fez gélido, gesticulando para que se afastassem.
Os pais de Lin Lao Er tornaram-se ainda mais desesperados, mas ao pensarem que o filho estava bem pouco antes e agora morto, caíram num lamento sem fim; a mãe, de tanto chorar, desmaiou.
Mas meu tio permaneceu impassível. Incapaz de suportar tal cena, adiantei-me:
— Tio, veja como o tio Lin e a tia estão suplicando, talvez…
Antes que terminasse, ele ergueu a mão, irritado, interrompendo-me:
— Nada do que diga fará diferença.
Ao vê-lo tão inflexível, não pude conter certa revolta; recordando suas três recusas, indaguei, algo ofendido:
— Tio, somos todos do mesmo vilarejo, não pode abrir uma exceção? Se um dia eu mesmo cair no Qing Shui, não virá me socorrer?
O silêncio pairou no statemento.
Meu tio, sempre entretido com a jangada, ergueu devagar a cabeça.
Desta vez, nenhum traço de emoção em seu rosto, apenas a calma enquanto me fitava e, com voz fria, respondeu:
— Não, não irei.
O ambiente tornou-se ainda mais tenso.
Fiquei ali, ruborizado de vergonha.
Jamais imaginei que ele seria tão implacável comigo.
Naquele momento, entendi: era meu tio, sim, mas só nos conhecíamos há dois dias.
A família Lin, ao ver nosso impasse, percebeu que, sem dinheiro, meu tio não se moveria; entreolharam-se, apoiando-se mutuamente, e partiram.
Naquele dia,
meu segundo tio tornou-se ainda mais famoso!
Não só por sua habilidade sobrenatural de descer ao Qing Shui para buscar corpos,
mas sobretudo por sua insensibilidade.
...
À noite, ao regressar, meu pai, percebendo meu abatimento, levou-me ao pátio e disse:
— Já soube do ocorrido com teu tio hoje!
Sorri amargamente:
— Não entendo a cabeça do meu tio!
— Xiuyuan, vivemos neste vilarejo há décadas! Tudo que ouvimos são as trivialidades do povo. Mas teu tio é diferente; quanto mais capaz o homem, mais se apega a princípios e regras!
Meu pai, afagando-me a cabeça, perguntou sorrindo:
— Achas que ele tem talento?
Fiquei surpreso e respondi de pronto:
— Sem dúvida!
Em apenas dois dias, ele desceu ao Qing Shui duas vezes, ganhou mais de um milhão; nem nos vilarejos vizinhos há quem se iguale a ele!
— Pois é. O dom de descer ao Qing Shui é dele; se não respeitar as regras, o que perderá será a própria vida!
Ao ouvir tal explicação, senti um arrepio percorrer-me o corpo.
Naquela noite, os acontecimentos do dia não me permitiram repousar em paz.
...
No dia seguinte, fui como de costume à escola. Aproximando-se o entardecer, preparava as aulas no escritório, quando ouvi vozes do lado de fora. Saí e vi o chefe da vila, Lin Wu, acompanhado de uma sacerdotisa taoísta, dirigindo-se em minha direção!
O chefe, ao me ver, acenou:
— Xiuyuan, ainda bem que está aqui, venha cá!
— O que foi, irmão Wu? — perguntei, aproximando-me.
— As chaves do dormitório da escola estão contigo, não é? Leve a senhorita Su até lá. Tenho pendências na casa dos Lin, verei se posso ajudar.
Ele explicou em voz baixa, fazendo-me entender:
A sacerdotisa chamava-se Su Zimo, trazida pela família Lin da cidade para realizar rituais fúnebres para Lin Lao Er. Ao final do dia, já era tarde para regressar, teria de passar a noite ali.
Concordei e conduzi Su Zimo até sopé do dormitório.
— Vosso vilarejo não parece abastado, mas esta escola é bem construída! — disse ela, com o hábito e a sacola de pano, mãos nos bolsos, olhando ao redor com curiosidade.
Caminhando, foi picada por um mosquito, bateu no pescoço e praguejou contra o inseto.
Perguntei-me em silêncio:
Esta era a sacerdotisa?
Nada tinha do ar etéreo e venerável que eu imaginara.
E, ademais, uma sacerdotisa!
Era a primeira vez que via uma.
— Por mais pobre que seja, não se pode poupar na educação; por mais difícil, não se deve sacrificar as crianças. Este é o único colégio dos vilarejos vizinhos, precisa ser bem feito!
Abri a porta do dormitório:
— Aqui é o alojamento feminino, há dois quartos, ambos disponíveis. A roupa de cama é nova! Banho, tudo em ordem, só precisa ferver água. Há mais mosquitos, vou comprar repelente para você.
— Tum-tum-tum!
Mal terminei a frase, a porta foi bruscamente golpeada!
Su Zimo e eu nos viramos, atentos.
— Tão tarde e alguém na escola? — murmurou ela, franzindo o cenho.
— Talvez o irmão Wu precise de algum favor — respondi, surpreso. Mas, ao me aproximar da porta, ao pôr a mão no limiar, ela foi violentamente escancarada, batendo com força em meu rosto; caí de household para trás, sentando-me no chão, as mãos sobre o rosto, praguejando:
— Mas que droga, não se pode abrir uma porta direito?
Mal terminei, ouvi o grito apavorado de Su Zimo ecoando pelo cômodo.