Capítulo 4 Causas e Consequências
Rua Yin Si, o fulcro da economia do submundo, não ostentava, contudo, multidões bulhentas. De quando em quando, uma ou outra sombra espectral deslizava apressada, sumindo num piscar de olhos. Afinal, os frequentadores da Rua Yin Si eram, na maioria, fantasmas; deslocavam-se flutuando, naturalmente mais céleres.
Embora centro de transações, mesmo na zona mais próspera da rua, vislumbravam-se apenas uns poucos edifícios. Os estabelecimentos que logravam erguer-se ali, no coração de Yin Si, não careciam de prestígio: não bastava a qualidade das mercadorias, mas, sobretudo, a importância dos seus proprietários, figuras de destaque em todo o submundo.
Naturalmente, este era o núcleo. A partir dele, os preços decresciam gradualmente e as lojas multiplicavam-se. Para manter a ordem, os administradores do submundo organizaram esses estabelecimentos num agrupamento que, ao longo do tempo, tomou a feição de uma pequena cidade. A opulenta "Rua Yin Si" atravessava essa extensão vasta, suficiente para eclipsar uma grande metrópole. Apesar disso, o nome "Rua Yin Si" persistiu nos hábitos.
No cotidiano, criaturas de todas as ordens, até mesmo de outros dos Seis Reinos, vinham ali perambular. Em geral, quando se falava da Rua Yin Si, referia-se à avenida central, embora não faltassem becos lúgubres e decadentes, incapazes de se autodenominarem "Rua Yin Si" – cada qual adotava seu próprio nome.
Quem os batizara, ninguém sabia ao certo.
Dentre eles, havia um chamado "Rua Queyin": uma rua tortuosa, espremendo quatro casas, das quais duas mantinham as portas entreabertas, e as outras, há muito seladas pelo abandono. Sob os beirais, pendiam alguns lampiões brancos, cuja chama oscilava caprichosa, quase se extinguindo ao vento.
O submundo – o chamado mundo dos mortos – não conhecia o sol. Ainda assim, não era um lugar sombrio; seus habitantes estimavam o clima ameno, sem calor, sem frio, sem secura ou aridez.
Esporadicamente, médiuns capazes de atravessar para o submundo por meio de encantamentos vinham cumprir missões, o que lhes servia como valiosa experiência. Já os cultivadores comuns raramente se aventuravam ali, pois a energia impura do submundo prejudicava seu cultivo espiritual.
Aqueles que uniam mediunidade e cultivo, entretanto, moviam-se com mais facilidade. Havia, porém, seitas ortodoxas que desprezavam tais práticas.
No lado leste da Rua Queyin, uma loja operava com a porta entreaberta.
— Tio, por tudo que lhe trouxe de bom desta vez, não pode me poupar um pouco? Aquele lugar maldito acabei de visitar, e já quer que eu volte? Não, recuso! — A voz juvenil, ansiosa e clara, vinha detrás da porta, repleta de resistência.
— Moleque, por acaso acha que abri esta loja para fazer caridade? As coisas que trouxe são boas, sim, mas não me subestime: sei muito bem a quem pertencem! Se eu as aceitasse, estaria buscando encrenca!
Percebendo o impasse, o rapaz intensificou a súplica:
— Tio, ora, se eu lhe chamar de vovô, serve? Vovô, faça uma caridade, desta vez fico te devendo, na próxima pago tudo junto, eu juro!
O homem de meia-idade, fitando o rapaz que erguia quatro dedos ao céu, manteve-se imperturbável. Seu semblante severo quase se desfez ao ouvir o “vovô”.
— Malcriado! Tenho só uns poucos séculos e já me chama de vovô!
A figura diante de Fu Ze era Liudaozi, alguém do submundo capaz de desenhar talismãs e reparar artefatos. Desde que, séculos atrás, fora permitido a alguns humanos viverem ali, tornou-se corriqueiro encontrar pessoas habilidosas: em geral, médiuns ou cultivadores sem saída.
Todavia, sobreviver no submundo exigia métodos secretos para ocultar a energia yang, resistindo ao frio que dilacerava ossos. Quem alterava o modo de circulação do próprio qi tornava-se quase indistinguível de um fantasma.
Por que, então, abandonar o mundo dos vivos, de luz e calor, para se aventurar no submundo? Além da necessidade, havia razões próprias da arte mediúnica. Havia locais, tanto no submundo quanto entre os vivos, onde missões eram publicadas regularmente; médiuns transitavam entre ambos, cumprindo tarefas e recebendo pagamento.
No último século, sabe-se lá o que os poderosos do Palácio dos Mortos fizeram, mas agora nenhum fantasma normal atacava humanos sem motivo. Em resumo: havia algo de suspeito.
No submundo, existiam pequenas seitas. A mais vasta era a Associação dos Médiuns, cuja lenda atribui a fundação ao patriarca dos mestres do Yin-Yang, transferido para ali após obscuras vicissitudes.
A Associação dos Médiuns, aliás, tinha ligação com aquele homem à sua frente...
Dizia-se que Liudaozi fora expulso da Associação por razões inconfessáveis, embora ele demonstrasse considerável habilidade. Fu Ze dependia dos talismãs de teletransporte de Liudaozi, o que o levava a crer em seus poderes.
Ao que parece, não era o único em tal situação, embora fossem raros.
Fu Ze ouvira rumores dos “vizinhos de rua”: segundo o Fantasma Obeso do lado, Liudaozi, dotado de talentos, fora notado cedo pela Associação, mas, por algum motivo, acabou rejeitado e, sem rumo, passou a sobreviver fazendo talismãs e reparando artefatos para terceiros.
Não esclarecia muito, mas a suposta ligação de Liudaozi com a Associação vinha daí.
Embora a Rua Queyin parecesse decadente, ainda era parte da Rua Yin Si; com a técnica de Liudaozi, não lhe faltava sustento.
Seus produtos eram sempre de boa qualidade, nunca falhavam, e os preços, justos. Os talismãs de teletransporte, por exemplo, jamais deram problemas.
Por vezes, porém, fazia pedidos “um tanto” exagerados aos clientes...
— Moleque, sem dinheiro nem mercadoria, a única coisa que posso te dar é um jeito de me divertir! Chega de enrolação, anda logo, meu tonel de vinho está quase vazio! — Sacudiu a túnica azul-escura de borda negra, lançou um olhar impaciente ao vinco feito por Fu Ze em sua roupa.
Fu Ze, já sem alternativas, resignou-se. Juntou, de uma só vez, os subornos que espalhara sobre a mesa redonda, enfiou-os no saco de armazenamento e partiu sem olhar para trás.
O homem de meia-idade fitou o vulto do rapaz que se afastava, chupou os dentes. Ah, bem que queria aqueles objetos, mas o pequeno feitiço de rastreamento neles impresso traria problemas indesejados...
Que pena.
Quem sabe se esse rapaz sobreviveria.
— Que seja o destino a decidir. Bem, vou abrir um tonel de vinho; quem sabe se ainda terei oportunidade de beber de novo, hahahaha...
...
Fu Ze morava sozinho num dos montes do submundo. Seu chamado “lar” não passava de uma construção de pedra negra, mal podendo ser chamada de casa.
A pequena cabana, no alto do morro, era inteiramente escura: formada por pedras banhadas em sangue de besta do submundo, o que servia para afugentar espíritos desvairados.
Ao entrar, Fu Ze largou-se na cadeira, apoiou a cabeça numa mão, e, com um gesto displicente, fez aparecer um saco de armazenamento sobre a mesa.
Desatou o saco: inúmeros tesouros e curiosidades rolaram sobre a mesa. Vasculhou os pertences, tirou outro saco, despejou tudo junto, formando uma pequena montanha.
Não bastava. Com apenas aquilo, ir àquela terra de fantasmas devoradores e sair ileso era uma chance em três.
— Ai, vou acabar morto... Vovô, quando vem me buscar...?
Fu Ze supunha ter um avô, ou ao menos assim diziam. O avô vivera naquele monte do submundo junto dele.
Nunca vira os pais; desde que tinha memória, o chamado avô cuidava dele com extremo carinho no primeiro ano. Lembrava, vagamente, que era um homem belíssimo, que não gostava de ser chamado de avô.
Depois, partiu em busca de algo, deixando-o aos cuidados de Liudaozi.
Com sete anos, reencontraram-se; aos oito, o avô foi embora.
Antes de partir, deixou-lhe objetos úteis, garantindo-lhe a sobrevivência.
O avô não era de sangue, encontrara Fu Ze junto a um lago de águas verde-esmeralda, por isso o nome “Ze”.
Jamais lhe deu o sobrenome “Fu”; chamava-o apenas de “Xiao Ze, Xiao Ze”.
Mais tarde, ao descobrir que o avô se chamava Fu, Fu Ze, de olhos suplicantes, agarrou-se à manga dele e sorriu:
— Vovô se chama Fu, então Xiao Ze é Fu Ze!
Recordava nitidamente o momento em que o avô hesitou, não negou nem confirmou.
Mesmo uma aceitação tácita bastava: ao adotar-lhe o sobrenome, seriam família para sempre.
Lembrava como o avô, melancólico, fitou o horizonte, murmurou baixinho:
— Fu Ze... Ai...
Fu Ze nunca entendeu o suspiro do avô, nem quis entender. Naquela noite, o avô, inusitadamente, falou muito.
Na manhã seguinte, partira.
Ao despertar, Fu Ze não o encontrou. Lembrou-se de que, à beira da Ponte Naihe do Rio Wangchuan, poderia rever quem desejasse. Saiu às pressas.
Dizia-se que, à beira do rio Wangchuan, junto à Ponte Naihe, havia uma menina vendendo chá...
Enfim, se o avô não lhe concedera o sobrenome, não o usaria.
Desde então, Fu Ze viveu só, chamando-se Lin Chuan, na esperança de um dia reencontrar quem queria junto ao rio Wangchuan...
Após a partida do avô, encontrou-se com Yu Guan — uma espada enferrujada — e iniciou a vida de "escravo da espada"...
Memórias dolorosas, difíceis de revisitar.
Deitado, Fu Ze começou a refletir sobre os últimos acontecimentos.
Como de costume, usara o talismã de teletransporte para uma missão, quando teve o azar de cruzar com um Taotie: devorou casas, árvores e até os artefatos que ele trouxera, sugando-os.
Cinco daqueles artefatos haviam sido obtidos de imortais do Submundo Inferior; perdê-los doía-lhe a alma.
Enquanto lamentava, foi surpreendido por um Inspetor — dois, na verdade. Quando pensava que sua vida estava perdida, a sorte interveio: os Inspetores encontraram um inimigo.
Infelizmente, Fu Ze foi arrastado junto, caindo num espaço-tempo desconhecido.
Na lendária “Terra Selada”, Yu Guan ainda feriu o Inspetor...
No mesmo ferimento anterior...
Só de lembrar, Fu Ze quase morria de arrependimento. Era encrenca das grandes; talvez passasse a vida fugindo de Inspetores ou fosse morto sumariamente.
Mas também não podia se livrar de Yu Guan — era forçado a conviver com aquela espada gananciosa.
No fim, talvez por estar de bom humor após ferir o Inspetor, Yu Guan abriu um rasgo no espaço e o trouxe de volta.
A coisa toda parecia uma ilusão.
Como de praxe, foi até Liudaozi buscar talismãs; não esperava que ele identificasse aqueles artefatos como dos Inspetores — nem mesmo Yu Guan conseguira apagar completamente suas marcas.
Liudaozi ainda advertiu: pelo feitiço residual, os Inspetores poderiam rastreá-lo.
Ao ouvir isso, Fu Ze quis atirar tudo fora, mas Liudaozi acrescentou com voz lânguida: — Melhor não jogar fora; talvez sirvam para redimir suas faltas...
Fu Ze: “...”
Se quisesse mais talismãs de teletransporte, teria de buscar cinco frutos de Wanshu na Terra Ancestral para Liudaozi fazer vinho.
Os frutos de Wanshu não eram raros, nem tinham uso especial; Liudaozi, porém, era viciado neles.
Dizia que o vinho feito deles era o mais delicioso do céu e da terra — Fu Ze chegou a provar às escondidas e quase morreu envenenado de tão amargo. Como podia chamar aquilo de vinho?
Deus sabe que história Liudaozi e os frutos de Wanshu compartilhavam — pelo nome, já parecia uma paixão perversa.
— Ai, destino cruel...
Por que me fazer sofrer assim?
Pensando bem, havia quem viajasse de longe para buscar talismãs com Liudaozi e voltasse de mãos vazias; ele, por alguns frutos, conseguia sempre o que queria. Nada mau.
O problema era que a Terra Ancestral era problemática.
De fato, sua sorte era considerável.
Sobreviveu ao Taotie, sobreviveu aos Inspetores.
Acariciando a parede irregular, a textura fria não lhe era desagradável.
Fu Ze fechou os olhos.
Desta vez, sem os artefatos protetores, quem sabe se voltaria da Terra Ancestral...
Yu Guan saltou com leveza, pousando no braço dele. Fu Ze sentiu que a espada, silenciosa, lhe prometia companhia eterna.
Sentiu a vibração de Yu Guan e esboçou um sorriso.
— Ora, eu não tenho medo! Quem sou eu? Sou invencível! Vamos, à Terra Ancestral, agora!
...
Terra Selada.
O Inspetor de manto negro moveu-se de repente; sob a aba larga do chapéu, um olhar profundo e magnífico. Jiang Zhu estava alerta, sem saber que novo ardil o aguardava.
Ele e Fu Ze haviam se esforçado para evitar aqueles homens, mas em vão...
E aquela espada imprestável de Fu Ze — deveria continuar selando-a com tinta de cinábrio, mantê-la como "sucata enferrujada", única via segura.
Além disso, ultimamente, algo estranho turvava o ânimo de Fu Ze. O que teria ocorrido?
Jiang Zhu franziu as belas sobrancelhas, mas ao lembrar que Fu Ze detestava vê-lo preocupado, aquietou-se, sorrindo, alisando a testa...
Subitamente, Jiang Zhu sentou-se de um salto; o movimento brusco reabriu suas feridas, arrancando-lhe um gemido de dor.
Suas mãos longas ainda guardavam a brandura juvenil, não eram de adulto. Examinou-se, vendo-se de novo no traje de Inspetor — que há muito não usava...
...
Mal saiu de casa, Fu Ze pressentiu algo estranho.
No oeste, nuvens sombrias se aglomeravam; o qi yin daquele dia era especialmente denso. Fu Ze, inquieto, sentiu que esquecera de algo.
Num repente, bateu na testa.
— Ah! Como pude esquecer? Amanhã é quinze de julho.
No Festival dos Fantasmas, os portões do submundo se abrem, espíritos e espectros enlouquecem atravessando para o mundo dos vivos. Nesse dia, o submundo é um caos.
Uma vez por ano, a grande festa. Fu Ze já fora à terra dos vivos nesse festival; além da desordem, nada de extraordinário. Deveria ir este ano? Aqueles conhecidos ficavam sempre atarefados até não poder mais — deveria ajudá-los desta vez?... Ao recordar aquelas figuras desajeitadas, Fu Ze riu para si mesmo...
Esquecera completamente que estava sem talismãs de teletransporte.
E a Terra Ancestral, situada na fronteira entre Yin e Yang... Bem, o Festival dos Fantasmas era a pior ocasião para ir até lá.
Pesou os prós e contras e decidiu adiar a viagem.
Sentado sozinho em casa, entediado, pensou em ir passar um tempo na companhia de Liudaozi.
Tomou Yu Guan da cama e partiu.