Capítulo Três: A Temível Garota Cheia de Fantasias e de Forma Roliça
— Você tem razão, chefe! — exclamaram algumas das delinquentes ao ouvirem as palavras de Yu Ci, como se também percebessem que, ao escolher uma vítima mais fraca, a tarefa de intimidação se tornava ainda mais fácil.
— Pois é — disse Yu Ci, aliviando-se ao ver que as outras concordavam consigo. — Se refletirem bem, aquela tal de Lin Xiao’ai não passa de uma pobre coitada, comum a ponto de ser indistinguível na multidão. Não acredito que Leng Xing se interessaria por alguém tão insignificante.
— Não precisamos mais arranjar confusão com ela. Que continue aí, o dia inteiro, tentando seduzir Leng Xing com aquele seu ar de piedade.
Seria melhor mesmo deixar a protagonista em paz de uma vez por todas.
Assim evitaria que, no futuro, alguém surgisse diante dela dizendo de repente: “Leng Xing pertence à nossa Yu Ci”. Se algo assim acontecesse, sua missão…
Estaria destinada a ser jogada ao vento.
Ai…
— Em suma, deixo aqui a minha decisão. Vocês também avisem as demais: parem de se meter com aquela lá, entenderam? — ordenou Yu Ci.
As vozes das delinquentes ergueram-se em uníssono: — Chefe, entendemos!
— Muito bem. Eu vou… — As palavras “para a aula” mal haviam se formado em seus lábios quando uma das garotas, gordinha, exclamou de repente:
— Chefe, acho que você está bem estranha hoje!
O coração de Yu Ci deu um salto.
Chamada para a central! Chamada para a central!
[Do que você está com medo...? Mesmo que te levem para um teste de DNA, você ainda será Yu Ci!]
[Nada de pânico!]
— Estranha como? — perguntou ela.
— Chefe, antes você sempre chamava o Príncipe Leng de um jeito tão… íntimo. Por que hoje está se referindo a ele de modo tão distante? Chegou até a usar o nome próprio dele! Leng Xing!?
E ainda por cima, de um jeito seco, sem qualquer afeto?
— Eu fiz isso? — Maldição, por que nestes romances femininos os protagonistas masculinos precisam de nomes tão ridículos?
“Príncipe tal e tal”? Acaso se acham nobres medievais?
Apesar do turbilhão de imprecações que fervilhavam em seu íntimo, Yu Ci manteve no rosto um sorriso constrangido, porém cortês:
— E como era que eu costumava chamá-lo mesmo?
Talvez se aprendesse agora, evitaria cometer o mesmo erro futuramente.
No entanto, tal pensamento durou só um instante.
Porque—
A garota gordinha, ouvindo a pergunta, deu um passo à frente, ergueu a mão e, assumindo um ar de sedução rebuscada, os olhos semicerrados, arremessou para o ar um olhar lânguido, como folhas de espinafre no outono:
— Leeeeeng~ Prííííííííííííííncipe~! Assim você chamava, chefe.
De repente, ela entendeu perfeitamente por que o protagonista masculino desprezava a antagonista.
Argh.
Diante de tal espetáculo grotesco, quem conseguiria se animar?
— Hahaha…
— Estive conversando com o avô do Príncipe Leng há pouco — pigarreou Yu Ci. — Ele me disse que, desde pequeno, Leng Xing só gosta de garotas dignas e recatadas.
— Ele não aprecia aquele meu estilo mais… solto. Por isso, a partir de agora, vou me empenhar para ser uma jovem elegante e refinada.
Mal terminou de falar, um coro de exclamações admiradas explodiu ao seu redor.
— Então era isso!
— Eu sabia! A chefe está tão calma hoje!
— E sua voz, tão suave… muito mais gentil do que antes…
As garotas tagarelaram por longos minutos, chegando enfim a um veredito tão absurdo quanto cômico:
— Viu? A chefe ama o Príncipe com tamanha profundidade!
— Foi capaz até de mudar a própria personalidade por ele!
Yu Ci: …
Escapar do meio daquele bando de mulheres só foi possível meia hora depois.
Assustador.
Yu Ci respirou fundo; começava a sentir pena do protagonista masculino — sobreviver entre tantas mulheres insuportáveis e não humanas, e encontrar alguém tão normal como Lin Xiao’ai… Era natural que seu coração se abalasse.
–
Aula.
O conteúdo do segundo ano do ensino médio, Yu Ci já devolvera aos professores há oitocentos anos. Por sorte, a dona original deste corpo jamais fora do tipo estudiosa; era considerada a “terrorista” da sala, e se conseguisse passar a aula sem falar já estaria prestando um grande favor ao professor. Portanto, ninguém a chamava para responder perguntas.
Ao contrário—
Bastava Yu Ci pegar um livro para ler, e logo alguém a cutucava, perguntando se estava de mau humor.
Frustrada em sua tentativa de parecer uma estudante exemplar, Yu Ci resignou-se e largou o livro, entregando-se ao ócio escolar.
Depois de uma manhã inteira de devaneios, com o estômago vazio, Yu Ci resolveu ir ao refeitório.
[Vai, vai, vai! Rápido!]
[A Xiao’ai está no refeitório neste exato momento! Yu Ci, meu caro, alimente-se e aproveite para conquistar minha adorável Xiao’ai!]
Yu Ci: …
— Estou indo.
Chega de conversa fiada.
Felizmente, o prédio da escola não era longe; não havia risco de se perder.
Só que… quanta gente, caramba!
— Você consegue localizar a Lin Xiao’ai? — indagou Yu Ci.
[Um instante…]
[Uau—]
[Tem tanta gente aqui que não consigo detectar o “cheiro” da protagonista!]
[Avance, homem escolhido pelos deuses! Em meio a esta multidão, encontre minha querida Xiao’ai!]
Maldição.
Incomodada com o track do sistema, Yu Ci foi direto ao balcão do refeitório.
[O que está fazendo? Vai desistir de procurar a Xiao’ai?]
— Vou comer.
— Não me perturbe. Assim que terminar, vou direto à sala dela.
[Muito bem…]
Tirando o dinheiro, Yu Ci precipitou-se ao arena dos balcões.
E não é que o Alistair, sendo um colégio de elite, tinha mesmo uma qualidade de alimentação absurda?
Com pouco mais de noventa yuans, Yu Ci serviu-se de dois pratos de carne, dois de legumes e duas sopas — uma verdadeira refeição digna de imperador, muito além das marmitas deploráveis da encarnação anterior.
E, graças à reputação de valentona da dona original, encontrar uma mesa nunca fora problema.
Sentou-se numa mesa limpa, carregando a bandeja repleta.
Uau.
Além de apetitosos, os pratos eram deliciosos.
No entanto—
Após poucas colheradas, Yu Ci percebeu um detalhe inquietante.
Já não era mais “ele”; com o corpo atual, era uma “ela”.
Meia tigela de arroz bastou para sentir-se farta.
Fitando os seis pratos à sua frente, mergulhou numa confusão existencial.
Deveria… desperdiçar comida?
Enquanto hesitava entre o desperdício e o aproveitamento, uma voz feminina, surpresa, soou às suas costas:
— Senpai!
— Ah! — Yu Ci virou-se. Era a garota oxigênio da manhã, que reaparecera diante de seus olhos. — Lin Xiao’ai?
Ser chamada pelo nome deixou Lin Xiao’ai visivelmente feliz:
— Sou eu! Senpai, está almoçando sozinha?
Sim… sozinha, embora já estivesse de saída.
— Isso mesmo — sorriu Yu Ci, delicada. — Acabei de começar.
— Que coincidência! Também acabei de terminar meus deveres e vim comer! — disse Lin Xiao’ai, a voz doce como mel. — Senpai, posso me sentar com você?
— Claro!
Sentou-se, leve como uma pluma.
Só então Yu Ci percebeu quão pequenina era Lin Xiao’ai.
Mas—
— Vai comer só isso?
— Apenas dois pratos de divinha?
— É… — Ao mencionar os pratos, um rubor tomou-lhe o rosto. — É que… a comida da escola é tão cara…