Capítulo Seis Zebra, zebra, não adormeças
A brisa noturna da cidade estava um tanto abafada e quente.
Mas nada se comparava à excitação e ao entusiasmo que fervilhavam nos corações de Chen Fang e Pang Tong.
— Chen Fang, aquela canção foi mesmo você quem escreveu? — indagou Pang Tong, curioso.
Se outros duvidassem de Chen Fang, Pang Tong se irritaria; mas ao fazer tal pergunta ele próprio, não via mal algum.
“Meu irmão, eu posso duvidar de você; mas se forem eles, jamais!”
Chen Fang apontou para a própria cabeça:
— Aqui dentro só há coisa boa. Vá aprendendo aos poucos.
Pang Tong já nem se dava ao trabalho de lhe mostrar o dedo do meio.
Grrrrrr...
As barrigas de ambos começavam a clamar por socorro.
— Vamos comer algo primeiro — sugeriu Chen Fang.
Pang Tong coçou a cabeça, embaraçado:
— Mas com que dinheiro? Estamos sem um tostão!
Chen Fang permaneceu em silêncio.
Por pouco se esquecera!
Já não era mais o dono de uma empresa de entretenimento, mas apenas um jovem artista vendendo canções nas ruas.
— E a morin khuur de hoje, de onde veio?
— Droga! — exclamou Pang Tong, dando um tapa na própria testa, as bochechas rechonchudas comprimindo-se numa expressão cômica. — Paguei cem yuans por ela e acabei esquecendo de pegar no palco!
Cem yuans?
Que barato!
Mas, pensando bem, fazia sentido.
A morin khuur era um instrumento raro naquele mundo; poucos sabiam tocá-la, menos ainda fabricá-la. Se não fosse por Chen Fang, talvez em breve a morin khuur desaparecesse de vez da história musical da China.
Cem yuans era um preço de liquidação.
Chen Fang massageou o próprio estômago. Seu corpo estava deveras debilitado; precisava comer bem para se recuperar, ao menos ganhar algum peso.
Mas não tinham dinheiro!
Após refletir, Chen Fang propôs:
— Vamos para casa pegar o violão; iremos ao velho lugar cantar nas ruas.
Por ora, cantar nas ruas era a única fonte de renda dos dois amigos — dependiam disso para pagar a comida e o aluguel.
Mas Chen Fang sentia-se confiante.
Em breve,
ele e Pang Tong não precisariam mais recorrer à música de rua.
No caminho,
os aromas tentadores das barracas de comida de rua faziam-lhes a boca salivar, mas precisaram resistir à fome e retornar ao modesto apartamento, de onde pegaram um violão velho e seguiram rumo ao cruzamento junto ao Parque do Povo.
— Quantas pessoas! — exclamou Pang Tong, surpreso.
O cruzamento familiar estava cercado por uma multidão.
Chen Fang franziu as sobrancelhas levemente:
— Será que tomaram nosso lugar?
Pang Tong também estava intrigado; naquela região, apenas ele e Chen Fang costumavam cantar — desde quando surgiram outros músicos de rua?
A multidão murmurava, alvoroçada.
Chen Fang e Pang Tong aproximaram-se do limite externo do aglomerado.
Nesse instante,
uma jovem de rosto delicado notou os dois e exclamou, em alto e bom som:
— Chen Fang chegou!
Num átimo,
todos os olhares voltaram-se para Chen Fang e Pang Tong.
— Chen Fang, ouvi sua música, é maravilhosa!
— Chen Fang, passo aqui todos os dias voltando do trabalho, lembra de mim?
— Uau! Pessoalmente, é ainda mais bonito que na TV!
— “Anhe Bridge” é encantadora, cante de novo, pagamos por isso!
— Achei que hoje não viessem cantar, quase perdi!
...
No meio do burburinho,
Chen Fang finalmente compreendeu.
Aquelas pessoas estavam ali especialmente para esperar por ele e Pang Tong.
Os dois sempre haviam cantado naquele cruzamento, e muitos rostos na multidão eram já familiares; seus principais “benfeitores” estavam entre elas.
— Abram caminho, deixem-nos passar — pediu Chen Fang em voz alta.
A multidão cedeu, abrindo-lhe uma passagem.
Chen Fang jamais imaginara que, apenas por ter cantado uma canção numa audição televisiva, obteria repercussão tão imediata no mundo real.
— Todos querem ouvir “Anhe Bridge”, e certamente irei cantar. Mas, como podem ver, estou sem a morin khuur hoje; o efeito não será o mesmo. Peço que me perdoem pela simplicidade — explicou Chen Fang, sorrindo com cordialidade e paciência.
— No entanto... —
Ele fez uma pausa.
— Preparei também uma canção nova, para compensar vocês.
Uma música nova?
Pang Tong lançou-lhe um olhar surpreso.
Algo não estava certo!
“Rapaz, por que não me contou essa parte do plano?”
A ideia de Chen Fang, porém, surgira no improviso.
Uma única apresentação de “Anhe Bridge” já lhe trouxera certa notoriedade; era preciso aproveitar o calor do momento enquanto o entusiasmo do público persistia.
Observando a multidão, notou que muitos gravavam vídeos com seus celulares; uma vez que esses vídeos fossem publicados online, sua fama e a de Pang Tong se ampliariam ainda mais. Era, pois, imprescindível cantar uma nova canção.
...
Parque do Povo.
A noite caía.
No cruzamento, a pequena fonte lançava filetes de água que subiam a metros de altura, para então caírem pesadamente.
Incontáveis luzes coloridas conferiam ao vapor d’água no ar um véu de sonho e fantasia.
Ali perto,
sob o toldo de uma cafeteria,
uma mulher apoiava o cotovelo sobre a mesa, amparando o rosto alvo na palma da mão. As longas madeixas onduladas, de um vinho profundo, repousavam sobre os ombros; a outra mão mexia distraidamente o café. Os olhos, porém, estavam lânguidos, como se divagasse em pensamentos distantes.
— Yuanyuan! —
De súbito,
uma voz travessa soou, e alguém a abraçou por trás.
A mulher sobressaltou-se, mas logo recuperou a compostura, lançando um olhar magoado à recém-chegada:
— Quase derramei o café de susto.
A jovem travessa sentou-se à sua frente, observando a amiga por instantes:
— Foi difícil arranjar um tempo para passear, e você está com essa cara de preocupação! Seu “pequeno astro” arrumou confusão de novo?
— Apenas uns contratempos — respondeu a mulher, relutante em se alongar no assunto.
No instante seguinte, lançou-lhe um olhar reprovador:
— E, além disso, sou apenas empresária dele. Que história é essa de “meu pequeno astro”, parece até que estou sustentando um artista!
A amiga mostrou a língua, travessa, e pegou a bebida que já havia pedido. Num só gole, bebeu metade; seus grandes olhos brilhantes se fecharam de prazer, e os lábios rubros exalaram um suspiro de pura satisfação:
— Ahhh! Isto sim é viver! Sem chá com leite, eu morro!
A mulher de cabelos cor de vinho apenas balançou a cabeça; sua amiga vivia falando em fazer dieta, mas sem chá com leite não vivia — no fim, nem emagrecia, nem deixava de tomar a bebida predileta.
Tlim!
A colherinha tilintava de leve contra a borda da xícara.
Decorridos alguns minutos, a mulher de cabelos ondulados murmurou, de súbito:
— Weiwei, você acha que eu deveria mudar de emprego? Ser empresária de celebridades talvez não seja para mim.
— Por quê? —
— Não era você quem gostava de “disciplinar” jovens talentos?
You Nianwei sorveu mais um gole generoso do chá e fitou a amiga, intrigada.
Logo, porém, a expressão se tornou grave:
— Xi Yuanyuan, fale a verdade. Sua empresa está te pressionando de novo, não está?
Xi Yuanyuan sorriu tristemente, sem responder.
Tum...
Uma nota de violão, vinda de longe, chegou aos ouvidos de Yuanyuan.
Ela virou-se; o cruzamento estava tomado por uma multidão, mas não conseguia ver quem tocava. O branco prateado da fonte misturava-se ao som sutil da água, invadindo seus olhos e ouvidos, e, por um momento, sentiu-se mais leve.
As luzes multicoloridas quase a faziam perder-se.
O som cristalino do violão soou novamente.
Desta vez,
a melodia não cessou, desenrolando-se em um prelúdio simples e grave.
— Música de rua? —
Yuanyuan estranhou,
mas não deu maior importância. Músicos de rua geralmente tocavam apenas para ganhar algumas gorjetas — nada que valesse nota.
Logo em seguida,
uma voz rouca e profunda emergiu do meio do povo:
◤Zebra, zebra,
não adormeça,
deixe-me ver mais uma vez teu rabo ferido,
não quero tocar a cicatriz da tua dor,
só desejo levantar teus cabelos◢
...