Capítulo Cinco: A Integridade dos Literatos
No interior do grande acampamento, reinava uma atmosfera de júbilo. Zhang Jie, trazendo consigo ramos espinhosos em sinal de penitência, veio apresentar suas desculpas; Cao Dingjiao, entre sorrisos e gracejos, apertou-lhe a mão e selaram a reconciliação. Assim, ambos protagonizaram um episódio memorável, e o prestígio de Cao Dingjiao, naquele momento, era insuperável entre as tropas.
Naquela noite, sob o brilho tênue das estrelas, Cao Wenzhao conversava com seu sobrinho Cao Bianjiao do lado de fora da tenda principal, trocando entre si meras confidências familiares, sem abordar assuntos relativos ao exército ou ao Estado, de modo que não se inquietavam caso fossem ouvidos.
Cao Wenzhao, não contendo a emoção, suspirou e disse:
— Dingjiao, esse rapaz, afinal, amadureceu e assumiu responsabilidades. Quem diria que aquele menino ranhoso, tão pequeno, hoje seria capaz de empunhar armas, entrar em combate, conquistar fortalezas e abater inimigos? O tempo, de fato, passa célere.
Cao Bianjiao, porém, manifestou sua preocupação:
— O episódio com o magistrado do condado de Xiao abalou profundamente Dingjiao. O rapaz, depois de tantas provações, chegou a cogitar tornar-se um oficial civil. Mas ele não pondera que, ainda que vestisse as vestes de um mandarim, aqueles homens jamais o considerariam um dos seus—esta é uma verdade que enxergo com clareza.
Embora no campo de batalha Cao Bianjiao fosse destemido e invencível, em privado era um homem de pensamento meticuloso; não fosse assim, não teria alcançado tanto êxito mais tarde.
Cao Wenzhao riu e disse:
— Esse tolo do Dingjiao! Imaginar que, apenas por saber ler e escrever algumas palavras, seria capaz de compreender os meandros dos documentos oficiais... Melhor não nos envolvermos com aqueles velhos raposas do funcionalismo. As facções na corte estão demasiado divididas, não convém atiçarmos esse fogo sobre nós.
Cao Bianjiao, preocupado, replicou:
— Ai, a condição dos nossos generais já é, por si, de pouca estima. Agora Dingjiao se meteu numa encrenca maior. Quem sabe como a corte interpretará isso? O caso do condado de Xiao certamente há de deixar sequelas.
Cao Wenzhao, generoso, respondeu:
— E o que mais poderiam fazer? Já o puni severamente. Mesmo que rumores circulem na corte, assumirei toda a responsabilidade, como seu tio que sou. Ademais, temos ainda um aliado.
O aliado a quem Cao Wenzhao se referia era Hong Chengchou. Durante sua permanência em Shaanxi, Hong travou dezenas de batalhas, e, embora Cao Wenzhao tenha sido o que mais se destacou, não recebeu os devidos créditos; generosamente, concedeu as honras a esse homem de caráter duvidoso. Agora, cercado pelas forças rebeldes em Xinyang, Hong Chengchou era o primeiro a receber o socorro de Cao Wenzhao—tal dívida de gratidão, decerto, estaria por ser quitada.
Em voz baixa, Cao Wenzhao acrescentou:
— Amanhã, partiremos ao alvorecer, enquanto o ar ainda estiver fresco e propício para a marcha. Avançaremos o quanto pudermos. Logo adiante está a vila de Qiutou, que provavelmente já caiu nas mãos dos rebeldes. Reconquistaremos aquele ponto e, então, buscaremos rastros dos inimigos em Luanmachuan.
...
Ao soar do meio-dia seguinte, o relógio biológico de Cao Dingjiao advertiu-o de que era hora de levantar-se. Espreguiçando-se preguiçosamente, ele se ergueu, bocejando enquanto saía vagarosamente da tenda.
Por um instante, Cao Dingjiao, incrédulo, arregalou os olhos diante do que via: como aquele lugar se tornara um terreno vazio? Ele bem se recordava de que ali ficava um acampamento militar.
Despertou, de súbito, e começou a procurar ao redor, para logo perceber, atrás de si, algumas pequenas tendas, onde soldados cozinhavam alimentos e uns poucos feridos jaziam ao lado, gemendo baixinho.
Apressou-se, impetuoso, até eles, perguntando:
— Onde está nosso exército?
Um dos soldados, erguendo a cabeça abruptamente e reconhecendo o jovem general Cao, exclamou surpreso:
— Senhor Cao, já está restabelecido de seus ferimentos?
Cao Dingjiao, constrangido, acenou com a mão e respondeu:
— A têmpera de um literato é minha natureza, logo me recuperei. Mas deixemos isso de lado: onde está nosso exército?
O soldado, com gesto respeitoso, explicou:
— Em resposta ao senhor, o general Cao e o jovem general Cao partiram à frente das tropas para reconquistar a vila de Qiutou. Ouvi dizer que pretendem avançar em direção a Luanmachuan. Ficamos encarregados de cuidar dos feridos; a tropa partiu ao romper do dia e, a esta hora, já devem estar perto do destino.
— Qiutou e Luanmachuan? — A expressão de Cao Dingjiao mudou abruptamente. Agora, sim, perdera uma chance decisiva; como pudera dormir além da conta?
Aflito, ordenou:
— Tragam-me meu cavalo e minha armadura, preciso ir ao encontro deles com urgência!
O soldado hesitou:
— Senhor Cao, mas vossa senhoria ainda está convalescente...
Cao Dingjiao fulminou-o com o olhar:
— O momento é grave! Podes arcar com a demora? Anda, prepara logo o cavalo!
Os soldados, temerosos, não ousaram demorar-se; o jovem general Cao era famoso por sua bravura, e ninguém desejava incorrer em sua ira. Apresurados e atrapalhados, trouxeram-lhe o cavalo e sua couraça, junto à longa lança de ferro.
Dois deles, unindo forças, ergueram uma pesada lança de aço, arma que só um guerreiro de excepcional vigor podia manejar. Outros dois ajudaram-no a vestir a armadura decorada com padrões de feras e montanhas; todo o equipamento defensivo estava completo. Na cabeça, o elmo de oito abas encimado por um penacho vermelho que se agitava ao vento—verdadeiro espetáculo de um herói singular, que se destacava entre os demais.
Cao Dingjiao, observando o próprio porte marcial, lamentou:
— Ai, por que não uma armadura branca, elmo branco, traje de batalha branco?
Um dos soldados apressou-se a responder:
— Senhor Cao, seria demasiado chamativo—tornaria-vos alvo fácil. Melhor prezarmos pela cautela.
Naquele tempo, era a primeira vez que Cao Dingjiao envergava uma armadura; sentiu-se tão animado que passou a caminhar de um lado para o outro, testando o equipamento. Logo, porém, franziu o cenho e indagou:
— Por que esta armadura é tão leve? Sinto que pesa menos que uma roupa comum. Será capaz de deter flechas e virotes?
Os soldados ficaram atônitos; o senhor Cao era realmente um homem extraordinário—reclamar que, mesmo sob dezenas de quilos de armadura, esta era leve demais!
Um deles respondeu:
— Senhor, desde que não enfrente disparos diretos de balestras ou canhões, ninguém em campo de batalha será capaz de feri-lo mortalmente.
Cao Dingjiao, ainda desconfiado, ponderou que a vida era preciosa em meio às batalhas e disse:
— Ponham-me então mais uma camada de armadura; esta está leve demais.
Os soldados, agora, estavam realmente sem palavras. Mesmo as armaduras mais leves pesavam vários quilos, mas, sendo sua vontade, não ousaram recusar. Atônitos, vestiram-lhe mais uma couraça, já sem conseguir articular qualquer comentário.
Cao Dingjiao, empunhando então sua lança de ferro de trinta ou quarenta quilos, voltou a franzir o cenho:
— Esta lança de bambu está leve demais. Não poderiam trazer-me uma lança de ferro de verdade?
Os dois soldados que tinham carregado a lança quase cuspiram sangue: chamar uma lança de ferro tão pesada de lança de bambu desqualificada! Se conseguisse encontrar uma “de verdade”, que o fizesse.
Um veterano apontou para o depósito e disse:
— O jovem general Cao forjou certa vez um mangual com espinhos, mas achou-o pouco prático e o deixou de lado. Senhor Cao, quer experimentá-lo?
Cao Dingjiao assentiu e, guiado pelo veterano, dirigiu-se ao armazém. Num canto, entre ferros retorcidos, avistou de imediato o mangual, semelhante a um ouriço.
Sob o olhar estupefato do veterano, Cao Dingjiao agarrou-o com uma das mãos—arma que pesava quase cem quilos—e, vibrante, começou a manejá-lo no pequeno depósito.
Ao final, satisfeito, declarou:
— Será este. Venha comigo agora; partimos já para Qiutou.
Como Cao Dingjiao tinha péssimo senso de direção, precisava do velho soldado para guiá-lo. O veterano, abalado pela força do jovem general, não ousou recusar; resignado, seguiu-o em direção à vila de Qiutou.