Capítulo Sete: Onde a Lei Não Proíbe, Não Há Tabu

Istriku satu demi satu semakin penuh keanehan. Perahu-perahu di Tepi Pantai 3387kata 2026-03-15 14:38:21

Alguns dias atrás, chegou um relatório urgente, atravessando oitocentas milhas.
O Rei de Nanyang anexou as províncias de You e Fu. Na capital de Nanyang, convocou os generais e executou dezenove deles.
A maioria desses generais fora enviada pela corte imperial.
Sua ambição ao norte era evidente como o sol ao meio-dia.
Na verdade, tal assimilação mútua entre príncipes poderosos era algo corriqueiro, e para a Grande Tang, não constituía necessariamente um infortúnio.
A questão era que Baiyue era terra de bárbaros do sul, infestada de demônios e espectros.
O súbito movimento do Rei Zhao deixava suas motivações ocultas, e muitos comentários insinuavam que o Rei de Nanyang tentara negociar com um tigre, buscando o impossível.
De outra forma, como poderia ele, com tal fúria tempestuosa, conquistar duas províncias?
Naturalmente, Yu Qian apenas ouvia com deleite essas intrigas nacionais que em nada lhe diziam respeito.
Se o céu desabasse, que os altos o sustentassem.
Nanyang distava milhares de li daqui, era longe o bastante.
Por ora, bastava-lhe cuidar de seu próprio e diminuto pedaço de terra.

— Lao Yan, quanto àquela história dos monstros na Viela Qili, tens alguma informação privilegiada? — Yu Qian pegou um punhado de sementes de melancia e as pôs diante de Yan Sheng, lançando-lhe a pergunta.

— Por que esse interesse? Ah, é verdade, moras na Viela Qili, não é? — devolveu Yan Sheng, questionando.

Yu Qian sorriu: — Exato, por isso a preocupação.

— Está bem, depois vou sondar para ti o que se passa. Só que nós e o Departamento de Captura de Demônios nunca nos demos muito bem, não posso garantir resultado algum — assentiu Yan Sheng.

— Compreendo — respondeu Yu Qian, sorrindo.

— Lao Yan, o que sabes do Hong Xiu Zhao, de Wufu Fang? O chefe pretende oferecer o banquete de boas-vindas do Yu Qian ali — questionou Sun Shoucheng.

— Hong Xiu Zhao... — Yan Sheng ponderou —. Antigamente, Wufu Fang era uma das zonas de entretenimento mais notórias do sul da cidade. Mas, nos últimos anos, decaiu bastante.
Ouvi falar desse Hong Xiu Zhao, todas as moças vêm do sul do rio Yangtzé, escolhidas, dizem, pela condição primordial de terem seios altos como montes e cinturas finas como salgueiros.
Dizem ainda que lá criam suas próprias meninas, educando-as segundo os padrões das ‘éguas magras’ de Yangzhou. Claro, essas ‘éguas magras’ estão além de nosso alcance.
Em suma, é um bom lugar.

Ouvindo isso, um grupo de homens versados em clássicos antigos sentiu o coração acelerar de expectativa.

— Chefe, e quanto a ontem à noite, qual tua impressão? — Sun Shoucheng não se conteve e perguntou a Ji Cheng.

— Eu, Ji Cheng, ajo com retidão em toda a minha vida. Como diretor do Departamento Dingyou, como poderia eu, levianamente, entregar-me a tais prazeres? — Ji Cheng resmungou friamente.

— Foi um deslize meu — desculpou-se Sun Shoucheng, constrangido. — Queria saber, chefe, se, durante a investigação de ontem à noite no Hong Xiu Zhao, as moças, como testemunhas, colaboraram bem?

Ji Cheng assentiu: — Sou homem simples, não tenho muitos adjetivos. Só posso dizer que colaboraram suavemente.

— Então está decidido?
— Sim, decidido está — Ji Cheng voltou-se para Wu Wancai: — Redija o requerimento e, em breve, leve-o ao Departamento de Finanças.

— Entendido — Wu Wancai não se demorou, tirando de pronto um pergaminho em branco e escrevendo: “Amanhã à noite, banquete de boas-vindas do Departamento Dingyou, reservado no restaurante Xu Ji, em Wufu Fang.”

Xu Ji ficava justamente ao lado do Hong Xiu Zhao; caso entrassem na porta errada, não seria considerado abuso de poder.

Wu Wancai conhecia bem o caminho.

O Departamento de Finanças não costumava demorar nas aprovações, mas ao menos levaria um dia.

Assim, o evento ficara marcado para a noite seguinte, pois, nestes tempos difíceis, gastar antes da aprovação seria uma dor atroz.

Yu Qian observava em silêncio — o Templo Dali, última linha de defesa da justiça,
e no entanto, ali estavam, usando fundos públicos para tais devassidões.
Assim foi na noite passada, e assim será amanhã. Com tamanha desfaçatez, como poderia a Grande Tang não mergulhar no caos?

O coração de Yu Qian apertou-se, mas, resignado, firmou sua assinatura na coluna de aprovação do requerimento.

Após o almoço, enquanto todos repousavam, um sino soou, nítido, sob a viga do aposento.

Ji Cheng ergueu os olhos, dizendo a Sun Shoucheng:
— Vai ao Departamento Central receber ordens.

— Pois não, chefe — Sun Shoucheng saiu apressado.

Logo retornou trazendo um rolo de seda, que entregou a Ji Cheng.

Este apenas o desdobrou e, num gesto displicente, lançou-o a Wang Zhen:
— Lao Wang, cuida disto.

— Sim, chefe — Wang Zhen levantou-se sorridente. — Shi Da, Sun Shoucheng e Yu Qian, venham comigo.

— Lao Wang, para onde vamos? Que caso é? — perguntou Sun Shoucheng.

— Fang Qingyun, no leste da cidade. Homicídio.

— Não é aquele o setor do Departamento Bing? Estão tão ocupados ultimamente?

— Sim.

Tal situação era comum no Templo Dali: se um departamento estivesse sobrecarregado, ou o caso não pertencesse à sua especialidade, recorria-se à cooperação de outro.

Após receberem a carruagem oficial, Wang Zhen entregou um pergaminho em branco a Yu Qian:

— Ficarás responsável pelo registro; sendo novato, tua prioridade é aprender.

— Sim, Lao Wang — Yu Qian recebeu o pergaminho.

— Doravante, chame-me apenas de Lao Wang; em nosso departamento, só há um chefe — Wang Zhen sorriu amavelmente, sua fisionomia já envelhecida ganhando ainda mais rugas, lembrando um avô bondoso.

Mas Yu Qian já conhecia esse tipo de figura: nos órgãos, os que parecem mais inofensivos e sorridentes são sempre os mais astutos.

Desta vez, coube a Yu Qian e Sun Shoucheng sentar-se na parte externa da carruagem. Era tempo de aprender as tarefas cotidianas.

O unicórnio de um chifre corria firme; as avenidas de Chang’an eram largas, e a carruagem deslizava célere.

Pelas ruas, populares e transeuntes, ao avistarem o brasão do Templo Dali, abriam passagem de imediato.

Yu Qian não se distraiu com a paisagem, mas voltou-se ao rolo de seda, onde estava registrada a natureza do caso.

Um homicídio ocorrera, instantes antes, na residência de um abastado local do Fang Qingyun; o patrão, senhor Ding, fora assassinado.

O agressor era um homem. Após o crime, fugira por sobre o muro, cruzando com patrulheiros que, por acaso, o detiveram.

O caso parecia simples, mas envolvia a vida do senhor Ding, um comerciante de destaque e boa reputação no bairro. Por isso, o caso fora transferido ao Templo Dali.

Poucos minutos depois, chegaram ao destino.

Em torno da mansão Ding, reunia-se uma multidão; um homem robusto jazia prostrado, imobilizado por patrulheiros.

Ao verem os oficiais do Templo Dali, o povo abriu caminho, permitindo que o grupo avançasse.

— Senhores, o agressor chama-se Ding Lang, trabalhador da casa, mantinha relações ilícitas com a concubina Zhou. Flagrou-os o senhor Ding e, tomado de desespero, matou-o — reportou um dos chefes de patrulha a Wang Zhen.

— Bom trabalho — Wang Zhen assentiu e aproximou-se, postando-se diante de Ding Lang, a quem olhou de cima. O acusado, lívido, tremia sem ousar encará-lo.

— Foste tu quem matou? — indagou Wang Zhen.

— Piedade, senhor! — balbuciou Ding Lang, apavorado.

Vendo-o, Wang Zhen bradou:
— Yu Qian!

— Aqui estou — respondeu Yu Qian, cerrando os punhos.

— Segundo as leis da Grande Tang, que pena cabe?

— Segundo as leis da Grande Tang…

— Diz em alto e bom som ao povo — Wang Zhen encarou Yu Qian, agora sem sorrir.

Yu Qian inspirou fundo, voltou-se para os presentes de olhares variados e, em voz clara, proclamou:

— Segundo as leis da Grande Tang, quem atenta contra o chefe da casa será punido com corte da língua, arrancamento dos olhos, ruptura dos tendões dos pés e, por fim, decapitação em praça pública!

— Shi Da, simplifica. Decapita-o, basta — murmurou Wang Zhen, afastando-se.

De imediato, Shi Da, até então calado, avançou, levantou Ding Lang como se fosse um pintinho e o lançou ao chão.

O terror absoluto tomou o rosto de Ding Lang, que repetia entre dentes:
— Piedade, senhor! Piedade, senhor!…

A súplica foi abruptamente silenciada — Shi Da já brandira a lâmina, e uma grande cabeça rolou pelo chão, sangue jorrando como uma fonte.

Ao redor, o povo emudeceu; os mais frágeis taparam os olhos, as crianças foram protegidas pelos pais.

Yu Qian, embora de costas para o espetáculo, sentiu-se igualmente tocado. Não por medo, mas por uma consciência ainda mais nítida da natureza deste mundo.

Então, Sun Shoucheng anunciou em voz alta:

— Ding Lang, no décimo ano de Zhengge, no quarto dia do sexto mês, atentou contra o chefe da casa; agora, decapitado em praça pública, em nome das puras leis da Grande Tang.
Zhou, concubina da mansão Ding, por adultério e conspiração, será lançada ao rio Cang, conforme a lei.
Templo Dali, Departamento Dingyou, aplica a lei com justiça, para que sirva de exemplo!

— Muito bem! — aplausos eclodiram entre o povo, o caso selado ali mesmo.

O restante ficou a cargo dos patrulheiros; Zhou foi colocada numa gaiola de bambu e, em procissão, levada até o rio Cang.

Curiosos seguiam atrás, a multidão engrossando, crianças riam em volta da gaiola, achando divertido o espetáculo.

Yu Qian e seus colegas, contudo, não acompanharam. Era hora de encerrar o expediente.

Wang Zhen anunciou o fim do serviço, e cada qual seguiu para casa.

Sun Shoucheng, então, conduziu Yu Qian de carruagem até sua residência. Quanto à carruagem, ficaria em sua casa até o dia seguinte, quando seria devolvida ao Templo Dali.

No assento da frente, Yu Qian, observando a paisagem que retrocedia velozmente, perguntou a Sun Shoucheng, que manejava o chicote:

— Não foi julgamento demasiado sumário?

Sun Shoucheng replicou:

— Na verdade, antes, para um caso como esse, ao menos três departamentos julgariam; a execução seria só após o outono. Mas agora, os tempos mudaram, é preciso rigor.
O imperador concedeu privilégios especiais, e o Templo Dali pode atuar sem restrições.

Doravante, não tema ao tratar de casos, pois, enquanto envergares este uniforme, o Templo Dali será teu escudo mais firme.

Yu Qian assentiu, sorrindo.

De fato, o Templo Dali era temido como um tigre feroz: aos olhos do povo, vestes negras; aos olhos dos oficiais, o próprio fantasma negro. Hoje, vira-o com seus próprios olhos.

A frase “sem restrição da lei” representava, na verdade, uma forma de poder absoluto. Não era de admirar que tantos disputassem uma vaga ali.

Do ponto de vista de Yu Qian, o julgamento fora por demais bruto e sumário. Mas, naquele tempo, era o ordinário.

Num mundo em que a vida pouco valia, não se podia julgar as coisas segundo a moral comum. Restava a Yu Qian adaptar-se, o mais rápido possível, a esse novo mundo.