Capítulo Quatro: Reunião para Preparativos de Guerra
O Departamento de Logística situava-se no trigésimo subsolo. Após chegar ao elevador, Chu Xiaobai apertou o botão e aguardou em curtíssimo silêncio. Não demorou muito para que as portas do gigantesco elevador se abrissem lentamente, revelando-se vazio em seu interior. Contudo, Chu Xiaobai não manifestou qualquer estranheza; afinal, havia ali oito elevadores daquele tipo, e estando no subsolo trinta e três, era natural que ninguém estivesse a descer.
Adentrando o elevador, Chu Xiaobai pressionou o botão marcado com [-30]; as portas se fecharam prontamente, e logo uma leve sensação de ausência de peso tomou-lhe o corpo. Ao sair do elevador, guiou-se pela memória em direção ao Departamento de Logística.
— Chu Xiaobai? Finalmente te encontrei! Dizem que não morreu? Por que veio se apresentar só agora, tão tarde? — Mal se aproximara da imensa porta metálica do Departamento de Logística, quando um brutamontes careca surgiu de dentro.
Os olhos de Chu Xiaobai se estreitaram sutilmente. Pela memória, sabia tratar-se de um dos supervisores do setor, seu superior direto, de nome Zhao Li — um super-humano de quarta classe.
Antes, Zhao Ji requisitara alguém do Departamento de Logística para acompanhá-lo em uma saída, supostamente para facilitar a limpeza do campo de batalha, um costume em suas caçadas. Contudo, era sabido por todos que tal companheiro não passava de um bode expiatório. Mesmo que sobrevivesse ao exterior, Zhao Ji jamais permitiria que retornasse vivo ao abrigo.
Nenhum dos que já acompanharam Zhao Ji em suas incursões regressou com vida.
Ao ver o que havia no Centro de Controle Central, Chu Xiaobai compreendeu o essencial. Se alguém soubesse ao certo o que foi arrecadado, seria esse auxiliar de logística; mas, se ele morresse, Zhao Ji poderia agir a seu bel-prazer, e, mesmo que suspeitassem, ninguém ousaria dizer coisa alguma.
O segredo mais bem guardado é o segredo dos mortos, pois mortos não falam. Eis a razão pela qual ninguém incumbido de limpar o campo de batalha ao lado de Zhao Ji sobreviveu para contar. Outros departamentos à parte, os altos escalões do Departamento de Logística estavam perfeitamente cientes disso. Assim, sempre designavam para acompanhar Zhao Ji elementos de pouco valor, cuja morte não causaria abalo algum.
Quando Zhao Ji assumiu como responsável máximo do Abrigo 111, era ainda um super-humano de sexta classe. Em pouco mais de dois anos, alcançou a sétima classe, e todos podiam imaginar o quanto se beneficiara em cada incursão.
É claro, conjecturar é uma coisa; expor, outra bem distinta. Nenhum alto dirigente queria ser o primeiro a levantar a voz. Como diz o provérbio, “quem se destaca, morre cedo”. Os altos escalões do abrigo eram todos velhacos experientes; jamais se arriscariam a antagonizar o chefe supremo por tão pouco.
Era o próprio regulamento do abrigo que produzia tal resultado. Uma vez recolhidos, os recursos passavam ao domínio do Departamento de Logística, tornando-se bens públicos. Mesmo Zhao Ji, como chefe supremo, só poderia utilizá-los após convocar uma reunião do alto escalão e obter aprovação da maioria.
Todavia, se desviasse parte desses recursos para si, poderia fazer o que bem entendesse. E foi esse mesmo Zhao Li, o brutamontes à sua frente, quem lançara Chu Xiaobai à condição de bode expiatório, obrigando-o a acompanhar Zhao Ji numa caçada. Se Zhao Ji não tivesse tido o azar de deparar-se com um senhor dos mortos-vivos alado de sétima classe, e por isso fracassado na fuga, quem teria morrido seria ele, Chu Xiaobai.
— Ei, moleque, em que está pensando? Dessa vez deu sorte, não morreu, foi? Pare de enrolar, trate de entrar e ajudar! — Diante do silêncio de Chu Xiaobai, Zhao Li desferiu-lhe um pontapé, obrigando-o a recuar três passos.
Apertando o abdômen dolorido, Chu Xiaobai lançou-lhe um olhar profundo antes de voltar-se em direção à porta metálica.
Se não fosse por ter evoluído para super-humano de segunda classe, seu corpo agora muito mais robusto, aquele chute tê-lo-ia deixado caído por horas. Agora, sentia apenas uma dor leve, o que bem demonstrava a diferença entre as classes de super-humanos — e, quanto mais alto o nível, maior o abismo entre eles.
Neste momento, Chu Xiaobai não pôde deixar de lembrar-se da estranha Lin Xiang’er: embora fosse super-humana de sexta classe, conseguira derrotar Zhao Ji, de sétima. Como seria possível?
Vendo Chu Xiaobai caminhar em silêncio para o interior do Departamento de Logística, Zhao Li mostrou surpresa. O rapaz não era teimoso, antes? Por que parecia mudado desde que voltou?
Sacudiu a cabeça, sem dar sopeso. Para ele, membros ordinários e obscuros como Chu Xiaobai nada valiam.
Todo o trigésimo subsolo pertencia ao Departamento de Logística, dividido em nove setores, cada um sob responsabilidade de um supervisor.
Chu Xiaobai integrava o quinto setor, precisamente sob o comando de Zhao Li.
— Xiaobai? — Assim que adentrou, uma voz masculina, clara e animada, ecoou.
Surpreso, Chu Xiaobai virou-se e avistou um jovem de feições delicadas acenando para ele. Após breve esforço de memória, aproximou-se.
Tratava-se de Lin Kong, um dos poucos amigos que Chu Xiaobai tivera no Abrigo 111 — e o único que ainda vivia.
— Kong, está se esquivando de novo? Se Zhao Li, aquele animal, te pegar, vai acabar apanhando outra vez — disse Chu Xiaobai, esboçando um sorriso.
Lin Kong fez cara de poucos amigos e socou-lhe de leve o peito:
— Você é que não morre, não é? Ouvi os canalhas dizendo que estava vivo, por isso fugi para te esperar. Vamos, precisamos ir; chegou um novo lote de cadáveres de insetos, temos de processá-los logo. Uma parte vai para o Departamento de Bioquímica, para virar suplemento, outra devemos armazenar como rações secas.
— Vamos, então — assentiu Chu Xiaobai.
Dobrar uma esquina revelou-lhes vasto espaço, onde milhares de robôs transportavam insetos colossais de sete ou oito metros até mesas de corte, onde braços mecânicos, sob controle humano, iniciavam a dissecação dos corpos.
— Xiaobai, por aqui. Os cadáveres ao redor daquele cortador são nossa tarefa de hoje — Lin Kong apontou.
Levantando os olhos, Chu Xiaobai divisou cinco insetos gigantes dispostos sobre a mesa. O menor tinha mais de oito metros; o maior, quinze — uma visão aterradora.
— Por que nos deram cinco, enquanto os outros cortadores têm só três, todos perto de oito metros? — indagou, franzindo o cenho ao olhar em volta.
Lin Kong coçou o nariz:
— Zhao Li, aquele animal, ouviu dizer que você voltou vivo e nos deu trabalho extra.
Os olhos de Chu Xiaobai se estreitaram, mas nada disse. Sentou-se ao lado do controle do braço mecânico junto de Lin Kong.
Dentro de três dias, planejava-se livrar dos altos escalões incômodos e assumir o comando do Abrigo 111. Novas e velhas contas, tudo seria cobrado então.
As lembranças do antigo Chu Xiaobai incluíam o manejo dos braços mecânicos, de modo que não precisou perguntar nada a Lin Kong; apenas agarrou os controles.
O braço mecânico ergueu-se lentamente, pairando sobre a mesa de corte, e logo as garras mecânicas agarraram o inseto de quinze metros, posicionando-o adequadamente.
Chu Xiaobai observou-o com atenção: a criatura lembrava uma louva-a-deus, com dois enormes membros anteriores que pareciam lâminas, brilhando ameaçadoras. Contudo, a cabeça era alongada, como a de uma serpente. Após analisar por um momento, identificou: tratava-se de um “inseto serpente-lâmina” de quinta classe.
A carne dessas criaturas era fibrosa, pouco saborosa, mas rica em energia. Depois de seca e comprimida, bastava um pequeno pedaço para saciar a fome — tornando-se ração de elite indispensável em expedições, e, por isso, apreciada por muitos.
Manejando os controles, Chu Xiaobai viu o braço mecânico liberar serras giratórias, cujo atrito produzia um zumbido ensurdecedor. Os exoesqueletos desses insetos eram duros e lisos, exigindo cortes precisos nas articulações antes de abrir a carapaça. O uso de laser danificaria a carne, por isso cabia aos auxiliares de logística, com árdua precisão, processar os cadáveres.
Foram necessários mais de três horas para que Chu Xiaobai, seguindo os métodos memorizados, terminasse de explicitly processar o inseto-lâmina de quinta classe. Suas mãos suavam, exaustas pelo peso dos controles e pela minúcia da tarefa.
— Xiaobai, por que não descansa um pouco? Já cuidou do maior, deixe o resto comigo — sugeriu Lin Kong, ao notar o tremor leve nos braços do amigo.
Chu Xiaobai sorriu:
— Não é nada. Este é o trabalho de ambos; devemos fazê-lo juntos.
Antes que Lin Kong pudesse responder, uma voz grave ecoou por todo o salão de trabalho:
— Atenção, todos! Equipe dezenove, apresentem-se imediatamente no salão de prontidão do primeiro andar.
Chu Xiaobai hesitou:
— Não somos nós, a equipe dezenove?
Lin Kong suspirou, amargurado:
— Sim, vamos. Provavelmente houve nova invasão de criaturas demonizadas ou insetos mutantes na zona de segurança do abrigo. O combate cabe ao Departamento de Batalha, aqueles loucos; nós só recolhemos cadáveres, núcleos e carapaças. Mas é perigoso: se algo passar pelo Departamento de Batalha, estamos perdidos. Não há o que fazer — desta vez, o sorteio nos escolheu...
Chu Xiaobai franziu levemente o cenho. Planejava ficar em segurança no Departamento de Logística por três dias, enquanto a policial instalava o canhão destruidor de partículas e, depois, assumir o controle do abrigo. Mas os planos nem sempre se cumprem: mal chegara, e uma pequena horda de insetos invadira a zona de segurança, sorteando justamente seu grupo.
É preciso lembrar que o Departamento de Logística tinha dez setores, cada um com vinte equipes. Por que justo a equipe dezenove? Começava a suspeitar que Zhao Li tramara algo.
Mas não adiantava conjecturar. Agora, não era questão de querer ou não: era obrigatório.
Sacudiu a cabeça. Com o Departamento de Batalha à frente, em regra estariam seguros. Além disso, agora era um super-humano de segunda classe; tinha como chefiar-se.
Deixando os controles, seguiu Lin Kong e mais quatro companheiros vindos dos outros cortadores, em direção ao exterior.